domingo, 12 de maio de 2013

A publicidade da exclusão: cadê as mães negras?

Em homenagem ao Dia das Mães 2013, as "Casas Bahia" (maior anunciante do país) fez um comercial bem inteligente para comemorar a data. Ao som da música "Fico assim sem você", interpretada por crianças, um vídeo vai apresentando diversos momentos em que as mães estão presentes na vida dos filhos, sempre com muito carinho e (dedicação).  Numa forma de referência ao tradicional slogan "Dedicação total a você".

Do ponto de vista da emoção e criatividade, podemos dizer que tal comercial é uma obra perfeita. Porém, observando com um olhar mais crítico, é impossível não se atentar para um velho problema da publicidade brasileira: a resistência em colocar personagens negros nos papéis de destaque das campanhas publicitárias.

Se é para homenagear a "dedicação de todas as mães", como é dito por uma voz feminina ao final da mensagem, porque não existem mães e filhos negros nesse comercial das Casas Bahia então? O interessante é que a própria "Casas Bahia" tem uma expressiva quantidade de clientes negros.

A impressão que fica é que as mães negras não possuem uma relação de carinho e "dedicação" com seus filhos, ou que elas nem mesmo existem no Brasil. É uma exclusão semelhante a que acontece nos programas de televisão (principalmente novelas).

Ninguém está pedindo aqui uma cota para negros em campanhas publicitárias e nem acusando a loja de racismo, mas é importante lembrar que nós, afrodescendentes, também consumimos bens e serviços.

Não sei se a falha é das "Casas Bahia" em si, ou da agência de publicidade responsável por suas campanhas, a Young & Rubicam, de Roberto Justus. De qualquer forma, fica a crítica.

Assista o comercial do Dia das Mães 2013 Casas Bahia:
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segunda-feira, 25 de março de 2013

"PEC das Domésticas" o pesadelo da elite

A aprovação da "PEC das Domésticas" no Senado foi recebida com indignação por muitos patrões brasileiros, basta observar alguns comentários na internet para perceber o clima de insatisfação entre eles.

Em uma das opiniões mais absurdas que li na rede, alguém  classificava como "injustiça" o fato de uma doméstica "que não estudou" receber acima de R$ 1 mil, como se todas as domésticas fossem analfabetas e, o estudo, único critério de valoração de salário.

De acordo com outro internauta, a categoria não pode ter tantos benefícios porque, diferente dos demais trabalhadores, "não gera lucros" para o empregador.  Quer dizer então que roupa lavada e passada, refeições e, casa arrumada, não são lucros? Enquanto os patrões ganham dinheiro na profissão que exercem, quem garante o conforto do final de expediente?

É de conhecimento público que o emprego doméstico no Brasil surgiu com o fim da escravidão. Sem a mão de obra escrava, a elite se viu obrigada a pagar pelo serviço que antes recebia gratuitamente. Assim, ex-escravos foram aproveitados nas funções do lar e, até hoje, a maior parte desses trabalhadores são afro-descendentes.

Durante muito tempo  a categoria ficou completamente desamparada pelas leis trabalhistas, o que favoreceu diferentes formas de abusos e explorações. Nesse contexto é que surgiram as jornadas de trabalho excessivas e os chamados  "quartinhos de empregada", cubículos  que as profissionais eram obrigadas a  dividir com baratas e trapos dos patrões.

A grande questão é que a elite brasileira nunca engoliu o fato dos mais humildes terem direitos na sociedade, é só a coisa melhorar um pouquinho para o outro lado que já começa a choradeira. O bom é que aos poucos o país está aprendendo a corrigir suas desigualdades, ainda que devagar.

Abaixo, uma performance de Gilberto Gil e Chico Buarque, onde os dois artistas brincam com a música "A mão da limpeza", que denuncia o preconceito e mostra como os negros assumiram atividades domésticas após o fim da escravidão:


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sábado, 2 de fevereiro de 2013

O Brasil não aprende com suas tragédias

Há uma semana, o Brasil foi abalado pela tragédia da cidade de Santa Maria (RS), onde mais de 230 pessoas morreram e diversas ficaram gravemente feridas num dos maiores incêndios com vítimas fatais na história do país. O incidente aconteceu na boate Kiss, local em que um público - formado em sua maioria por estudantes da UFSM-  participava de uma festa de integração.

O ocorrido não chama atenção somente pela quantidade de vidas perdidas, mas também pelas circunstâncias em que tudo aconteceu.     A tragédia poderia ter sido evitada com medidas simples, porém uma sucessão de erros colaborou para que a coisa chegasse ao ponto que chegou.

Entre vários problemas identificados até agora, sabe-se que a boate contava somente com uma porta para entrada e saída, estava superlotada, tinha uma espuma de isolamento acústico instalada de forma irregular, e ainda permitia a realização de shows pirotécnicos em seu espaço interno. A casa ia totalmente na contramão das mínimas condições de segurança, mas estava funcionando perfeitamente. O maior problema é que as autoridades sabiam disso e não interditaram o local. Aí deu no que deu.

Após a tragédia gaúcha, o país tem vivenciado o que podemos chamar de (Efeito Kiss), pois vários estados e municípios resolveram vistoriar e fechar casas de shows que apresentam falhas na segurança. Alguns governos tomaram essa atitude por medo, outros fizeram para fingir responsabilidade mesmo. Pura hipocrisia! Mas a questão é a seguinte: até quando vai durar essa fiscalização rigorosa?

Em  países mais sérios, o incêndio da boate Kiss seria motivo de profundas mudanças na legislação sobre o funcionamento de locais com grande aglomeração de pessoas. Mas, infelizmente, o Brasil é incapaz de aprender com suas tragédias.

Basta tomarmos como exemplo as catástrofes  provocadas pelas chuvas na Região Serrana do Rio de Janeiro, que tirou a vida de mais de 900 pessoas no começo de 2011. O que mudou de lá pra cá? Quanto se tem investido na prevenção contra enchentes, deslizamentos, etc? Pouca coisa foi feita.

Infelizmente, aqui só se pensa no pior depois que ele acontece ou volta a acontecer. Aí já é tarde demais, e o preço deste relaxamento é pago com vidas.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Polícia, uma instituição racista

Já dizia uma música de protesto composta por Marcelo Yuka: "Todo camburão tem um pouco de navio negreiro". A canção faz parte do primeiro Cd do grupo "O Rappa", e foi um dos grandes sucessos que marcaram os anos 90. Yuka foi feliz ao relatar nesta letra a opressão da polícia brasileira sobre os afrodescendentes.

Um dos trechos da música é enfático: "É mole de ver, que em qualquer dura o tempo passa mais lento pro negão. Quem segurava com força a chibata agora usa farda, engatilha a macaca, escolhe sempre o primeiro negro pra passar na revista."

Não é segredo para ninguém que a polícia carrega um longo histórico de preconceito contra os negros, e isso ficou mais evidente na penúltima semana de janeiro, depois que uma ordem de serviço assinada por um comandante da Polícia Militar de Campinas (SP) vazou para a imprensa.
O documento, datado em 21 de dezembro de 2012, determina que a viatura responsável pelo patrulhamento de um dos bairros mais nobres da cidade, aborde "especialmente indivíduos de cor parda e negra". A ordem é do capitão Ubiratan de Carvalho Góes Benneducci.

A polícia negou o cunho racista, e disse que essas seriam as características de indivíduos que praticam vários furtos e roubos na região, segundo uma carta enviada por moradores. É lógico que a polícia não iria assumir publicamente que vê o negro com outros olhos, mas esse comportamento racista da instituição já é bem conhecido, e se repete em todo o país. 

Para o major negro da PM paulista, Airton Edno Ribeiro, o racismo é uma das marcas da corporação. Em sua tese de mestrado intitulada “A Relação da Polícia Militar Paulista com a Comunidade Negra e o Respeito à Dignidade Humana: a Questão da Abordagem Policial”, existe uma pesquisa realizada com 50 cabos e soldados, onde esses relatam que [antes de entrarem na PM, achavam que havia preconceito contra negros. Depois de ingressarem não achavam mais: tinham certeza.]

Não por acaso, os negros lideram as estatísticas de mortos nos chamados "autos de resistência", onde o indivíduo morre supostamente em confronto com a equipe policial. É importante lembrar que por diversas vezes esses confrontos não aconteceram, foram forjados.

O racismo policial é pior do que os demais, porque acontece com o aval do Estado. O problema é que assim como no caso do garoto discriminado na BMW, o governo também prefere tratá-lo como "mal entendido".


Confira abaixo a ordem de serviço de cunho racista



O racismo na revendedora da BMW

Entra ano e sai ano, mas o preconceito racial brasileiro insiste em não ir embora. Hoje quero comentar sobre mais um caso vergonhoso de racismo que ganhou os noticiários na última semana.

Falo da discriminação sofrida por um menino negro na (Autokraft), revendedora autorizada de veículos da BMW, localizada na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. A criança de 7 anos  foi expulsa da loja onde os pais adotivos (de cor branca) negociavam a compra de um carro.

Imaginando que o garoto se tratava de um menino de rua em busca de dinheiro, o gerente que atendia o casal se dirigiu a ele com as seguintes palavras: "você não pode ficar aqui dentro, aqui não é lugar para você. Saia da loja". Sem entender o motivo do destrato, o filho deixou o local perguntando aos pais adotivos porque não aceitavam crianças naquela loja, e porque tinham uma televisão passando desenhos, já que ali não gostavam de crianças. 

O caso se assemelha com o de um menino negro, etíope, de 6 anos, expulso da Pizzaria Nonno Paolo, na Zona Sul de São Paulo, no fim de 2011. O garoto aguardava na mesa enquanto os pais adotivos (um casal de espanhóis de férias no país) se serviam no bufê do restaurante. Incomodado com a presença da criança, um funcionário a retirou do local a força.

Voltando para a história mais recente, a concessionária da BMW tratou de classificar o fato como um simples "mal-entendido", desculpa essa que já se tornou um clichê para os racistas. Sempre que o cerco se fecha, tudo não passou de um "mal-entendido". 

Mas a verdade é uma só, o vendedor julgou o menino pela cor de sua pele. Com a condição financeira dos pais adotivos, tenho certeza que a criança não estava tão descuidada e mal vestida a ponto de ser confundida com um menor de rua. O único problema é que se tratava de uma criança negra na loja da BMW né?

Nem precisaria dizer, mas esse episódio é inaceitável. A questão racial no Brasil ainda é muito forte, e isso precisa ser combatido tanto na esfera educacional como na judiciária. É necessário mostrar para os entusiastas do "Apartheid" que acabou esse negócio do  "aqui não é lugar para você". 
O lugar do negro é dentro da própria sociedade, e ponto.

Veja a matéria sobre a discriminação na loja BMW, exibida no Sbt
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Grandes Brasileiros 2012


Joaquim Barbosa:
Recebe a homenagem do blog Sociedade em Foco não somente pela atuação na Ação Penal 470 (Mensalão), mas também por sua história de superação e vitória. 

Negro, filho de um pedreiro com uma dona de casa, Joaquim Benedito Barbosa Gomes venceu as dificuldades de uma infância e adolescência pobre no interior de Minas Gerais, encontrando nos estudos e no trabalho precoce em uma gráfica de Brasília a oportunidade de mudança de vida.

Se formou em Direito na UnB, onde também concluiu seu mestrado em Direito do Estado. Ocupou diferentes cargos públicos em instituições importantes como o Ministérios das Relações Exteriores, embaixadas, Serpro, Procuradoria da República, entre outros. Obteve mestrado e doutorado em Direito Público na Universidade de Paris, atuou como professor visitante na Universidade Columbia, em Nova York, e  na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Em 2003, se tornou o primeiro negro a ocupar o cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal, por indicação do então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. No dia 22/11/12, assumiu a presidência do STF, o posto mais elevado da Justiça brasileira.

Oscar Niemeyer
É homenageado pelo blog por haver divulgado o nome do país no mundo inteiro por meio de suas obras de arquiteturas, e também por ter sido um defensor de uma sociedade mais justa e igual para todos os brasileiros.

Além de deixar maravilhosas construções arquitetônicas no Brasil e no exterior, o "amante das curvas" mostrou que era uma pessoa preocupada com o próximo, ao defender causas nobres, como, por exemplo, os movimentos de  reforma agrária

Com 104 anos de idade, Niemeyer ainda era capaz de surpreender com seus projetos e disposição para o trabalho.



sábado, 24 de novembro de 2012

Em clima de Consciência Negra

Mais do que promover a afirmação da identidade negra, o dia 20 de novembro também representa  uma data de protesto. É um momento para falar das injustiças de ontem, combater as de hoje e impedir as de amanhã.

Hora de fazer um resgate histórico, mostrando ao povo brasileiro que a crueldade de antigos administradores separou famílias inteiras, submeteu semelhantes a torturas e trabalhos forçados, e criminalizou manifetações culturais como o samba e a capoeira, por exemplo.

Com muita luta dos próprios afrodescendentes este cenário foi se modificando, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido até a igualdade racial brasileira. Basta lembrar que a população negra aparece em número elevado dentro dos índices de violência, desemprego e subemprego.

A explicação para esse quadro atual está na forma como o processo de abolição  foi conduzido no país. Diferente dos Estados Unidos, que criou a instituição Freedmen's Bureau ("Escritório do Liberto") para dar condições ao ex-escravo de se inserir e viver dignamente em sociedade, o Brasil lançou os libertos a sua própria sorte, ou porque não dizer, destruição.

Após a abolição brasileira, um grupo de intelectuais e políticos racistas procurou manter os negros em condições de extrema pobreza com a finalidade de empurrá-los para extinção. Entre os adpetos dessa corrente, figuravam nomes importantes como Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Artur Ramos e Nina-Rodrigues.

Havia uma crença de que se não recebessem nenhuma ajuda os negros seriam vencidos pela mortalidade infantil, desnutrição, doenças, entre outros problemas sociais. Alguns membros do chamado "racismo científico" chegaram a prever que em 70 anos não haveria mais negro no país. Sem amparo, ex-escravos e seus descendentes passaram a viver precariamente em morros, atualmente conhecido como favelas.

A desejada extinção da população negra brasileira foi um fracasso, mas deixou para o país uma grave herança de desigualdade social e preconceito que  prevalece até os dias atuais. Além das diferenças econômicas, ficou o racismo que se faz presente nas abordagens diferenciadas e execuções sumárias da polícia, nos estereótipos e na segregação imposta pela mídia, nas ofensas praticadas em locais públicos e pela internet, etc.

Apesar de tudo, podemos comemorar o aumento de políticas sociais que visam reparar os erros cometidos ao longo da história. Iniciativas como a cota racial em universidades, por exemplo, contribuem para o acesso a educação superior e, consequentemente, para um emprego justo e digno. Aos poucos as coisas estão melhorando, mas ainda existe muito a ser conquistado.

Leia aqui um texto bem interessante sobre o racismo científico.